Afinal tudo não passa de um jogo e isto pensava ela enquanto rolava a moeda em cima da mesa do café à espera da bica nem cheia nem curta.
Olhou à sua volta e sentiu que por vezes os ruídos se tornam tão familiares que deixam de ser reconhecidos de imediato. Das cores das roupas de verão, ficavam na retina as mais fortes, como nos estádios. Jogadores sentados num tabuleiro de xadrez, em frente às bicas, curtas, cheias, ou nem cheias nem curtas. E as palavras a soltarem-se por ali atrás do aroma do café.
Afinal isto é mesmo um jogo de sorte ou azar, com pesos e sem medidas, em que o prato da balança tende sempre mais para a segunda hipótese, embora, teoricamente, as chances sejam de fifty-fifty.
A moeda ia girando sobre si própria e ela via ora a cara ora a coroa em vertiginoso rodopio espelhado na mesa.
Não tinha jeito para enumerar prós e contras. Por isso deixava que o destino, ou que obscenidade chamavam a isso que nos come os dias e os cospe à meia-noite, rolasse e caísse de um dos lados.
O vento, a não bater certo com a estação do ano, fazia revolutear a moeda mais depressa… mais depressa…mais depressa…ou talvez fosse ilusão de óptica como outras coisas que já tinha visto dali daquele canto.
Os santos, de quem todos se lembram quando troveja, já tinham ido em peregrinação até ao ano seguinte. E a moeda dançava na indecisão ainda de para que lado cair.
As apostas ou escolhas, feitas em noites de foguetes e balões, com a lua a rir-se por cima do rio, estavam muito próximo de ser cobradas.
Tudo uma questão de paciência, pensou de novo, porque as duas hipóteses estavam ali. E a moeda lançada.
Agora bastava esperar que a moeda tombasse… cara… coroa…coroa…cara… Errado é escolher sem se saber o que entra no jogo. E ela sabia.
A moeda inclinou-se. Imobilizou-se no meio da mesa espelhada. Ela olhou a face da moeda que finalmente ficou visível. Sem surpresas. Ali estava a obscenidade do já visto sem hipótese de fintar o destino em mais uma aposta.
(porque uma moeda tem duas faces)
Não foi a vizinha que levou a chave. Não foi ele que pegou na chave. Não era S. Pedro o guardião da chave.
A história seguinte, contada em serões de véspera de marchas e arraiais, começava assim:
No altar da capelinha branca havia uma imagem de S. João, menino vestido de pele de cordeiro e, aos seus pés, o pequeno e puro animal que sempre o acompanhava.
A rapariga, devota do santo e amiga de tudo que era bicho, levava, quando podia, um cravo ao santo.
Daquela amizade de anos nasceu uma cumplicidade. O santo sorria-lhe e ela fazia-lhe confidências. Aos pés do santo o cordeirinho continuava sereno.
Quando a aldeia se enfeitou, pendurou arcos e balões, pôs fitas garridas e preparou as marchas, a rapariga, como sempre o fazia, pegou no cravo mais bonito e levou-o de presente ao santo. Não era promessa, não era pedido.
Dessa vez não conversou com ele. Ajoelhou. Olhou. Pensou. Antes de sair, voltou ainda uma vez o olhar para o cordeiro puro que, aos pés do santo, continuava deitado.
O dia acabou. A música encheu a noitada. Desfilavam todos, o povo aplaudia. No ar, o cheiro a manjericos, a sardinha assadas e pimentos. No chão, os pés acompanhavam as marchas e os balões traziam cores diferentes. Era a noite do santo e o santo queria essa noite.
Na escuridão tardia a rapariga esgueirou-se. O homem esperou-a. Longa a espera. Degraus conquistados sob o olhar atento do santo. No celeiro mais afastado da aldeia se encontraram. Dos beijos dados não reza esta história. Mas conta-se que foi o fogo mais bonito sobre o rio que alguma vez se viu. Conta-se que naquela noite o santo desceu do altar e dançou com o povo. Conta-se que sobre a manhã havia na palha e no pêlo do cordeiro a marca rubra da entrega. Conta-se que não há história de amor que se não tenha de pagar por ela.
Conta-se que S. João, por ter ido folgar com o povo, teve de entregar, por aposta, a chave a S. Pedro…
(porque hoje é dia de tradições e arcos e balões)
[ E Kami voltou a escrever das suas num conto novo ]
- Bolas!... Nunca iria usar a tua casa para comer a vizinha!....
- Tás doida?...
- Vejam só onde vai a tua imaginação!....
Ele estava absolutamente indignado com tamanha ideia.
Ela virou-lhe as costas, saíu da sala e voltou com a gravação do sistema de segurança...
Está aqui tudo retratado!...
Ele corou!...
- Ela só entrou cá em casa ... porque ... eu ... gritei!... Foi isso, eu gritei!
- Tu gritaste?...
- Claro! Eu congelei!...
- Congelaste?!.... Nota-se pelo filme!... E era a vizinha que te vinha descongelar?...
- Não!.... Ela entrou quando eu gritei e ia apenas verificar se a caldeira estava ligada.
- Como eu estava congelado, não me podia mexer....
- Tadinho!... Nem para dares uma desculpa tens jeito.
- Olha que depois foi ela que começou a falar comigo – disse ele com um ar muito inocente.
- Claro!.. e tu continuaste a falar com ela, sem uma toalha na frente... e com toda esta exuberância!...
- Eh, pá…Fiquei tão atrapalhado que nem me lembrei de me cobrir – ripostou ele imediatamente.
Fez-se um silêncio demolidor...
Perguntou ela num tom muito mais suave e a sobrancelha esquerda levantada:
- Mas a vizinha mexe assim tanto contigo?...
- Porque perguntas isso?...
- Desaparece-me da frente! E já agora, deixa a chave de casa em cima da cómoda.
- Não era por causa dela... era ainda por tua causa!..
- Desaparece-me da frente, já te disse! Ainda por minha causa?... então eu já tinha saído de casa há mais de duas horas!...
- Pois... é para tu veres o que provocas em mim!...
- Desaparece e é já!
Foram momentos terríveis!
Agora teria de pensar como iria resolver as questões todas pendentes:
1 – Onde dormir naquela noite?
2 – Como se desculpar?
3 – Como ficar a bem com ela?
4 – Como sair por cima desta situação?
- Mau! – pensou ele – será esta a ordem que tenho de seguir para resolver contenda?..
Bom, usando de um pouco de bom senso e recordando-se dos conselhos que a assessora lhe dera durante o jantar, optou por encontrar resposta a estas perguntas do lado de fora daquela porta.
Assim, saíu. Cabisbaixo, caminhou lentamente pela vereda que conduziria a lado nenhum.
Nada na vida é eterno e muitas coisas acabam por não ser clarificadas.
Pelo menos uma coisa lhe restava ainda, o consolo de poder olhar para a chave de casa, mantendo a esperança de um dia voltar.
Tinha por hábito deixar-se ficar mais uns minutos, ali, deitada, depois de tudo.
Divagações sobre ditos e reditos. Ou apenas digressões mentais sobre tretas contadas e recontadas.
Os pés balouçando, o olhar no instante ido, o cheiro ainda a pairar e a perdurar.
Desses silêncios surgiam as considerações, tomadas de corpo mole e alento cheio.
Desse turbilhão interior, onde as ideias se entrechocavam, vinham novas ideias, sempre numa incessante busca de algo novo. Começava a achar que a repetição era um aviso, como se, de um frasco de gás precioso, ela sentisse volatilizar-se a senilidade temida.
Depois, após o suspiro, brotava a incompreensão do provavelmente compreensível. Da respiração agora cada vez mais sincopada germinava a compreensão daquilo que possivelmente era impossível compreender.
Estranho! Muito estranho este mundo! Não uma aldeia, como lhe ensinaram. Um bairro, sabe-se agora! Como a vizinhança, abutres de olhos largos e esperas longas. Tudo uma treta estranha!
E ele era estranhamente estranho. E ela achava que isso era um sinal. Tinha saído dali, ainda lhe sentia o gosto, e ela a pensar
O telemóvel tocou no estranho momento em que os pelinhos louros do braço se arrepiaram por ser uma tarde estranha.
- Tou! Tou!
Ela riu-se, por assim nada lhe parecer estranho.
- Simmmm…
- Olha… conta-me mais uma história das tuas…
- Se contar…
- Conta, vá! Com aquela voz, aquela que tu sabes…
Ela voltou a olhar os pelinhos do braço que se eriçavam naquele fim de tarde estranho.
- Hmmmm! Já te contei uma em que… havia… comida… sim, era comida chinesa…
- Não. Começa a contar… - E ele deu a risadinha que nunca lhe era estranha. - Sabes, vou ter de voltar aí para ouvir o final…
(porque há sempre histórias estranhas na continuidade de estranhas histórias)
[E Maria Desejo aceitou o desafio e escreveu:]
Sentia-se renovado.
Tomara um banho longo (mas quem disse que os banhos de espuma são só para as mulheres?), depois vestiu uma roupa leve e preparou uma bebida.
Foi recostar-se na sala, na sua chaise longue, a apreciar a magnífica vista sobre a cidade.
Lá ao longe (mas tão perto) o mar, seu companheiro de confidências.
Aquele final de tarde era tudo o que precisava.
E estava a conseguir tê-lo só para si, depois de ter desligado os telemóveis, o computador, tudo o que o ligava ao resto do mundo.
Ele, a sua vista privilegiada, e aquela música envolvente no porta-cds.
A sós.
E foi a música que o impediu de ouvir o rodar da chave, a porta a abrir-se devagarinho, depois os passos sorrateiros pelo corredor.
E que não lhe permitiu senti-la parada à entrada da porta, sorrateira, como quem quer abrir a arca dos tesouros, mas espera para ver se não vai ser apanhada em flagrante.
Nem era isso que lhe importava, porque ela queria ser notada.
Mas estava a sorrir, ao vê-lo tão quieto, quando habitualmente era preciso muito para o conseguir.
Foi-se aproximando, lentamente, até se encostar à chaise longue e lhe tocar no cabelo.
Fê-lo demoradamente, sem se preocupar com mais nada.
Por essa razão não o viu cerrar os olhos, em deleite absoluto.
Ele sentiu, lá no fundo, que ela lhe fazia falta.
Por tudo e por nada. Pelo principal e por cada pormenor.
E ficaram assim, em silêncio, unidos pela música.
Ela percebeu-se invadir por uma espécie de formigueiro. Era sempre assim, quando estavam perto um do outro. Nem precisava de lhe tocar para se sentir afectada por ele. Mas quando se tocavam…
Foi fazendo descer as mãos, invadir-lhe a roupa, prolongar as carícias, aumentar o desejo, dilatar a volúpia.
Eis que parou.
Não saiu de detrás dele, para que ele não adivinhasse o que iria fazer.
Subiu o vestido, e desceu a peça de lingerie, até cair ao chão, abandonada.
Deu a volta à chaise longue, tocou-lhe na face, como que a despertá-lo de um sonho. Ele abriu os olhos, a admirá-la, linda ali em contra-luz.
Sorriu-lhe. E ela fulminou-o, com um olhar de fera perante a sua presa.
Passou uma perna por cima dele e sentou-se nele.
Ele gemeu um “aiii” de desespero.
Sabia o que os esperava. Ambos sabiam.
E gostavam de perder a consciência, de se dar um ao outro sem pudores, de descobrir novas formas de voar.
Juntos!
(porque uma chaise é um tema onde todos nos podemos estender)
[E Kami viu assim o tema da chaise e comentou:]
O gosto gostoso de gostar.
Gosto de sentir o gosto do toque gostoso... na seda preta!...
Gostosamente preta!.... Com a luminosidade daquele preto ofuscante, daquela seda suave...deslizando a seu gosto, ao longo da perna sensual, macia, de uma cor... repleta de sensualidade!...
Era o gosto de sentir o tempo passar gostosamente, acompanhado da imaginação do toque gostoso e sentido... do preto da seda pura e suave!...
Sente-se o gosto da sensualidade no ar!... Sente-se o som gostoso do preto do tecido passando pelos mamilos erectos do seu peito!... Sente-se a cor gostosa da sensualidade invadir todo o seu corpo!...
Ah!.... que gostos poderão provocar toda esta sensualidade?...
Só o gosto de poder gostar das cores gostosas que provocam o desejo!...
O desejo!.. Esse malfadado instinto com gosto próprio, que nos domina os gostos e as vontades...
O desejo!... Esse íman que nos atrai à cor gostosa da pele....
O desejo!... Esse gostoso pecado, desprovido de cor, mas tão colorido quando o sentimos!....
(porque é um desperdício as sensações provocadas por uma chaise ficarem perdidas num comentário)
Na sala, mesmo ao lado da jarra com malmequeres amarelos, duas velas grandes acesas. No quadro grande, na parede, começavam agora a desenhar-se as sombras evocativas de encontros ousados. As mulheres gostam de recantos e deixar navegar a imaginação. Se não inventam histórias, vivem-nas, Se as viveram, gostam de as recontar só para si. Ou recriá-las. Reclinadas, de olhos fechados, de corpo abandonado…
De que cor se veste o desejo se sobram vontades e escasseiam oportunidades?
De que gaveta se tira aquele fortuito tecido, suave por excelência no toque e contacto, diáfano mas a acender a sugestão e os sentidos?
De que se veste ou despe uma mulher quando se estende numa chaise-longue?
Deixemos a mulher sumir-se para além do que a envolve. Deixemos que a renda finíssima de uma camisa de seda, preta, se entreabra no decote e lhe toque a ponta dos seios. Deixemos que os braços dela se abram e a mão esquerda tombe ao longo da chaise. Deixemos que as pernas se alonguem e o pé direito afague a outra perna, com a delicadeza mais suave ainda que a da seda. Gestos lentos, supõe-se, como as sombras dançantes das velas. Porque nesse percorrer se torna exclusiva toda a antecipação do toque seguinte.
Deixemos enfim, que nessa sugestão de oferenda, o tecido resvale, o laço se desfaça, aponte caminhos sinuosos e planos, curvas, e quase adivinhados, esconderijos subtis, a essência do prazer, enquanto a outra mão sobe e redescobre a macieza do conjunto. Deixemos que se deleite, enfim, naquela solidão conduzida, partilhada em outras cumplicidades, onde não entra outra fantasia senão a que vive em si.
De que material é feita aquela peça?
Ela alongou toda a coluna. Arqueou o corpo. Sorriu. Os cabelos espalhando-se e as mãos, pois, as mãos sequiosas de outras mãos em que os dedos se entrelaçam e dois é o universo onde não tem lugar mais ninguém nem mais nada.
Ele pegou nas chaves. Soube, mesmo às escuras, qual escolher. Tremente, como adivinhando uma longa espera, enfiou-a na ranhura.
(porque uma chaise é mais que uma chaise)
Antes de ele começar a falar, já ela o olhava atentamente. Ajeitou a saia várias vezes (a importância dos elementos, sempre os elementos) com a ponta dos dedos, viu se a meia não escorregava pela perna abaixo, se o decote estava decoroso mas apelando a um olhar discreto. (factores fundamentais na redução do risco inerente ao processo, ora era isso).
Sacudiu o cabelo enquanto ajeitava os papéis sobre a mesa. Reunião informal, seria.
Fez a análise, mental, mais uma vez, respondendo antes de ele formular a pergunta seguinte. (o olhar dele era brincalhão, a voz segura, facilitador da comunicação, estava a ir muito bem).
Ele pressentiu-lhe o nervosismo, recostou-se na cadeira, contou uma anedota. (uma abordagem pragmática e de grande efeito)
A conversa fluiu, embrenharam-se num know-how de excelência, os documentos espalhavam-se, mudavam-se por cima da mesa, as mãos e os olhares tocavam-se imperceptivelmente. (estava a haver ali um potente mecanismo de feedback, caramba)
Pausa para jantar. Outra missão a cumprir. Entraram no carro rindo, a caminho do restaurante. (naturalmente, ela apreciou essa tomada de decisão)
Riram e falaram do antes e agora, durante o percurso, enquanto ele olhava a estrada e ela as unhas pintadas de fresco. Ele encostou na berma da estrada deserta. Haviam-se calado, de súbito, porque a surpreendente proximidade das respirações, seguida de um imprevisto silêncio se colou na pele de cada um e os levou a aproximarem as bocas num beijo que pareceu interminável. (factor de risco, considerado irrelevante naquele especifico momento).
A taça de morangos partilhada tornou-se um toma tu-dá-cá-repete-é bom, em mecanismos de entendimento que só quem vê os mesmos objectivos entende. Os pés, sob a mesa, trocavam as mensagens mais sugestivas que os encantos da palavra. (eram esses agora que facilitavam a comunicação aos mais diversos níveis internos).
Alguém se levantou, pegou numa guitarra e soltou-se a música. Alguém se ergueu. De voz profunda, cheia, sentida, o fadista agarrou o momento que falava de chegadas, de partidas e de nevoeiro…
(porque as palavras são como as cerejas)
Ela adorava o circo.
Ela respirava o circo.
Desde menina, pela mão do pai, recordava cada entrada na barraca grande. Era uma obsessão, que pertencia a um mundo fantástico, os desenhos com os animais e com os números perigosos dos cartazes. Magia, magia! O circo e a vida. A vida e o circo! Iam e vinham. Passavam pela cidade, ficavam uns dias e depois, partiam. Até um dia…
E o circo voltou. Se a emoção a tolhia e ela suspendia a expiração em cada performance dos artistas, o seu coração acelerava quando entravam na pista o acrobata e os trapezistas…
Era o acrobata mais cativante que ela alguma vez vira. Durante o espectáculo ele actuou só para ela, pareceu-lhe. A especialidade dele o trampolim. Sobre a tela ele parecia voar. Havia algo de único, de exclusivo, de infinitamente comum entre os saltos dele e os desejos dela.
Foi na saída, já sozinha e ainda com a alma cheia de som, imagem e cor, que o acrobata se chegou perto dela. Quando levantou os olhos ele estava ali. No seu fato ainda colorido de espectáculo e com um sorriso de nota vinte
Ela assentiu. Entraram na casa nómada dele. Foi então que, durante uma meia hora, ela segurou e delicadamente aflorou os dedos onde ele lhe pediu. Contornou, envolveu, acariciou. Deslizou, com carinho, afagando-lhe a pele. Apertou, ora com meiguice, ora com intensidade o músculo. Ele confiava, ela descobria. Aqui, ali, mais abaixo. Depois subia, descia, num movimento sincronizado e conhecedor. A palma da mão era mágica, a ponta dos dedos levava ao alívio.
Ele aprazia-se. A nota subia no sorriso. O dela acompanhava o resultado obtido.
Ela terminou a massagem no tornozelo. Ele disse-lhe que nunca tinha tido alguém tão delicado. Ela envolveu-lhe o tornozelo com uma ligadura e sem mais que um até saiu dali.
No meio da pista o trampolim despedia-se. Até uma nova volta à cidade...
(porque me apetece seguir palavras)
A noite a chegar, longa a noite e o caminho. A estrada de todos os dias e depois, o rádio, salvador, que não deixa que o sono vença.
Do dia faz-se o balanço, pega-se mentalmente na agenda dos cumpridos e adiados. Guarda-se o melhor para contar um dia ou apenas para manter no segredo do incontável. Ponderam-se as acções, envergonham-se os erros, vangloriam-se as vitórias.
E a menina da rádio a lembrar-lhe a voz dela, a fugir pelo vidro aberto, a sussurrar-lhe promessas. Raios parta se a Bonnie não era uma imitação dela ali ao lado.
Apetecia-lhe dizer-lhe, só por dizer, como depois daquelas horas de conversa sem mais,
Forevers gonna start tonight. Em inglês fica sempre melhor, raios parta se não fica. Tão bem como lhe ficava a ela aquele casaco comprido sem nada por baixo. Ou a camisola justa que lhe deixava adivinhar o que ela teimava
Tentou, depois do dia, pensar como ela cheiraria. Tentou lembrar-se de como o seio lhe enchia a palma da mão. De como ela se recostava no cadeirão, o olhava séria, levantava o sobrolho, pestanejava e depois soltava uma gargalhada. E depois o chamava, sem palavras, para se encaixarem no espaço onde só caberia um.
A lua seguia o carro, ou o carro a lua? A total eclipse of the heart. Once upon a time there was light in my life… Assobiado também fica giro, raios parta se não fica. Apetecia-lhe algo gelado, muito gelado. E o corpo dela, quente, muito quente.
Entrou em casa, largou as chaves, o cadeirão a encher-lhe a vontade. Obedeceu, sem mais forças que sentir o conforto do desejo. Fechou os olhos.
And I need you now tonight
And I need you more than ever
And if youll only hold me tight
Well be holding on forever
And well only be making it right
Cause well never be wrong together…
Paraíso será como um cadeirão? Raios parta se quando acordou não ia jurar que ela ali tinha estado.
(para ti, K., raios parta o que uma palavra pode sugerir)